30 de junho de 2015

Curiosidades Automobilísticas (23)

Linha de montagem de automóveis “Ford”, da “Ford Lusitana” e inaugurada em 6 de Janeiro de 1964, na Azambuja

Stand da firma “Mário Baptista Coelho, Lda”, em Lisboa, e distribuidores dos automóveis alemães “DKW”

Na foto anterior, da esquerda para a direita e em primeiro plano:

“DKW” Junior, de 1957
”DKW” F5 Front Luxus Cabriolet, de 1938
”DKW” 1000 Coupé, de 1958

Stand da firma “C. Santos, Lda.”, em 1961,  na Avenida da Liberdade, em Lisboa

Stand da “Sociedade Portuguesa de Automóveis, Lda.” na Avenida da Liberdade com automóveis “Renault” modelos “Dauphine” e “Floride” (em primeiro plano) em exposição em 1958

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

28 de junho de 2015

Hotel Estoril-Sol

O “Hotel Estoril-Sol”,  localizado no Parque Palmela em Cascais, projectado pelo arquitecto Raúl Tojal, foi inaugurado em 15 de Janeiro de 1965. Conhecido como o "Hotel dos Americanos", e com os seus 21 andares e 404 quartos foi considerada e a maior unidade hoteleira do país. A construção deste hotel foi promovida pelo empresário José Teodoro dos Santos (mais conhecido pelo “Teodoro das Malas”), como contrapartida pela concessão do Casino Estoril”.

Durante quatro anos e meio, uma média de 800 operários e técnicos portugueses trabalharam diariamente na construção do maior hotel português, de 21 andares em 1965. O seu custo ascendeu a 160.000 contos. Para se fazer ideia das suas dimensões o salão nobre do andar principal poderia receber até 2.000 pessoas em banquete ou conferências numa área aproximada de 1.200 m2 com uma varanda-terraço de 500m2.

Local onde viria a ser construído o hotel

 

Maqueta

A cerimónia inaugural foi presidida pelo Presidente da República Almirante Américo Thomaz, acompanhado por Teodoro dos Santos, administrador delegado da “Sociedade Estoril-Sol”, Dr. Manuel Teles e Jorge Teodoro dos Santos, administradores da mesma, e a alta sociedade de Cascais e do país.

Loja “Teodoro” propriedade de José Teodoro dos Santos, num anúncio de 1943

José Teodoro dos Santos

Teodoro dos Santos,  proprietário de uma loja de malas na Baixa lisboeta, promoveu a construção de um hotel que acompanhava a tendência hoteleira da época. Como refere Ana Tostões, no “Inquérito à Arquitectura do Século XX” em Portugal:

«Respondendo ao consumo de modelos e às exigências comerciais, sucedem-se empreendimentos (Hotel Ritz, Praia da Rocha, Estoril-Sol, Templários) balizados entre um estilo internacional, o modelo tipo "mediterrâneo", o brutalismo inglês e uma aproximação ao vernáculo local em hotéis e nos novíssimos programas designados por aldeamentos turísticos, caracterizados geralmente por uma escala muito diferenciada das dos aglomerados locais».

Vista exterior em 1965

 

Os quartos possuíam todos antecâmara, dotados de dupla instalação sanitária e varandas sobre o mar. Estava equipado com quatro ascensores para os hóspedes, três monta-cargas para bagagens e serviço e quatro elevadores para serviço dos quartos distribuídos pelos 21 andares deste hotel.

Este hotel possuía garagem para 200 carros, estação de serviço, salão de beleza, cabeleireiro, bowling, sala de bridge, galeria de lojas, agência de viagens, restaurante panorâmico, etc…

 

 

 

Na sua piscina olímpica, só se disputaram os melhores lugares ao sol entre os clientes que preferiam maior conforto do que o proporcionado nas areias da envolvente do Tamariz. O dono do hotel respondeu ao interesse, emitindo "cartões perpétuos" aos primeiros clientes.

Piscina olímpica

O início da década de 1970 correspondeu ao período de maior projecção do hotel, que possuía amplos salões para congressos e festas. Ali teve lugar o copo-de-água do casamento da infanta espanhola Pilar de Bourbon. Até à revolução de Abril, a clientela era principalmente oriunda do mercado americano. Os comerciantes do centro de Cascais sentem muito a falta do Estoril-Sol. Quando o hotel enchia os “outros” também estavam cheios.

 

 

 

Em 1 de Julho de 1966 abria o “Bowling”

Pelo “Hotel Estoril-Sol”, passaram inúmeras personalidades da vida social e política, sem esquecer os muitos artistas, alguns dos quais actuaram no Casino Estoril. Na infindável lista constam a princesa Grace Kelly, Jorge Amado, John Wayne, Fred Astaire, Elis Regina, Ray Charles, Gilbert Bécaud, Liza Minelli, Shirley Bassey, Diana Ross... Foram servidos com uma baixela da marca de luxo “Christofle”, composta por 27.477 peças, uma parte das quais foram oferecidas, mais tarde, pela administração da “Sociedade Estoril-Sol”, pouco antes da abertura do “Casino Lisboa”, como prenda natalícia. "Seria injusto festejar o futuro sem homenagear o passado", começava a carta que acompanhava a generosa oferta.

 

                                         1965                                                                                        1966

  

Etiqueta de bagagem e o indispensável «não incomodar»

              

Folheto promocional

 

O “Hotel Estoril-Sol” encerrou em Abril de 2003. A sua demolição foi iniciada em Janeiro de 2007

A “Ordem dos Arquitectos”, por ocasião da polémica em torno da anunciada demolição do “Hotel Estoril-Sol”, colocou os pontos nos "is" ao salientar que o velho edifício se tratava de "uma obra de autor e não de uma construção de pato-bravo". E o arquitecto Gonçalo Byrne, autor do projecto que substituiu o hotel, o “Estoril Sol Residence’” também reconheceu que o edifício "marcou" a sua época, embora lhe aponte o efeito barreira em relação ao “Parque Palmela”.

“Estoril Sol Residence”

 

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital,  Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

26 de junho de 2015

Yachts Reais “Amelia”

Em 1 de Setembro de 1896, nasceu a Oceanografia portuguesa, quando o Rei D. Carlos I (1863-1908) - e de seu nome completo, Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão - iniciou a bordo do seu primeiro yacht real “Amelia”, uma série de campanhas ao longo da costa atlântica de Portugal que se prolongariam até 1906. Além do interesse científico, D.Carlos I preocupou-se também em estudar os recursos marinhos vivos da costa portuguesa, tendo por objectivo maximizar o rendimento da indústria e do comércio da pesca. Esta era uma das mais significativas actividades económicas do país que, atravessando uma crise política e financeira graves, herdara para governar. Em 1898, dedicou-se, em especial, à investigação sobre pescas marítimas, tendo inclusivamente publicado o seu estudo sobre “A Pesca do Atum no Algarve”, editado pela Imprensa Nacional, Lisboa, em 1899.

Alguns trabalhos oceanográficos realizados por D. Carlos I, ou por ele patrocinados, foram pioneiros na oceanografia mundial. A sua ligação próxima ao Príncipe Alberto I do Mónaco, um dos mais brilhantes oceanógrafos desta era de exploração, foi certamente decisiva.

Interior de um navio oceanográfico, no início do século XX, numa reconstituição do “Museu Oceanográfico do Mónaco”

Os quatro yachts reais tiveram todos o nome de “Amelia” em honra a D. Maria Amélia Luísa Helena de Orleães (1865-1951), Rainha e esposa do Rei D. Carlos I.

De seguida umas páginas duma publicação do “Clube Naval de Lisboa”, de 1932,  em que esclarece os significados dos termos yacht e iate.

O yacht real “Amelia” (I) foi construído em Preston, Inglaterra, em 1878, foi adquirido pelo ainda príncipe D. Carlos em 1888, chegando a Cascais em 3 de Setembro deste ano. O seu casco era de ferro, tinha 33,84 metros de comprimento, deslocava 147 toneladas e atingia uma velocidade de 10 nós. Tinha três embarcações e vários apetrechos para os estudos oceanográficos a que o monarca se dedicava.

Primeiro yacht “Amelia” que chegou pela primeira vez a Cascais em 3 de Setembro de 1878

A gravura anterior, representa o yacht "Amelia" na viagem que fez de Lisboa a Setúbal, com os Duques de Bragança a bordo. No topo do mastro da proa içado o galhardete distintivo de vice-comodoro da “Real Associação Naval”, no mastro grande o galhardete branco com a Cruz de Aviz, distintivo do príncipe real D. Carlos. No mastro de ré o mariate J.B.C.S. pelo que o yacht poderia ser reconhecido em qualquer porto e por qualquer navio que se cruzasse com ele.

O segundo yacht real, o “Amélia” (II), foi construído em Leith, Escócia, em 1880, foi baptizado “Geraldine”, sendo adquirido em 1897 pelo Rei D. Carlos I, em troca do “Amelia” (I) e rebaptizado “Amelia” (II). Construído em ferro, deslocava 301 toneladas, tinha 45 metros, um calado de 3,20 metros e atingia a velocidade de 11 nós. A sua guarnição era de 20 homens, não incluindo os oficiais e um naturalista. Como o anterior “Amelia” tinha todos os apetrechos necessários para as campanhas oceanográficas e todos os instrumentos para a rápida preparação e conservação de exemplares.

Yacht “Amelia” (II)

“Campanha Oceanográphica de 1896”

Gravura desenhada pelo rei D. Carlos I  e páginas descrevendo os objectivos da Campanha Oceanographica de 1896


para consultar este livro completo acessar à UTL - University of Totonto no seguinte link directo : Archive.org

Em 1899 foi trocado pelo “Yacona”, que viria a ser o terceiro iate “Amelia”.

O yacht “Amelia” (III) foi construído em Inglaterra em 1898 onde se denominava “Yacona”. Foi adquirido em 1899 pelo Rei D. Carlos I à “Kinghorn, J. Scott & Co.”. O seu casco era em aço, deslocava 650 toneladas e tinha uma guarnição de 36 homens, incluindo três oficiais de marinha, um médico e um naturalista, O seu comprimento era de 54,86 metros, calava 4 metros e equipado com uma máquina a vapor de 650 cv. atingia urna velocidade de 14 nós. Participou em diversas campanhas oceanográficas dirigidas pelo Rei D. Carlos I, com a colaboração de oficiais da Armada.

Yacht “Amelia” (III)

Em 1901 foi trocado pelo yachtBanshee” que viria para Portugal receber o nome de “Amelia”  o quarto e último.

O yacht real “Amelia”  (IV) foi construído em Leith, Escócia, nos estaleiros ‘Ramage & Ferguson’  no ano de 1900, e foi adquirido em 1901 pelo Rei D.Carlos I em troca do anterior “Amelia”. Projectado como um cruzador ligeiro, este navio assemelhava-se, nas dimensões e no aparato, ao célebre “Princesse Anne II”  do príncipe Alberto I do Mónaco, que como já foi atrás mencionado, também um percursor e apaixonado pela Oceanografia.

Chegou a Cascais em 2 de Novembro de 1901. Com casco em aço, um comprimento de 70,1 metros e um deslocamento de 1370 toneladas, atingia uma velocidade de 14 nós. Era guarnecido por 74 homens, tinha seis embarcações, sendo uma a vapor e outra movida a electricidade. Tinha todos os apetrechos necessários aos trabalhos oceanográficos.

Notícia no jornal “Diario Illustrado” da chegada do novo yacht “Amelia” a Cascais em 2 de Novembro de 1901

Yacht “Amelia” (IV)

É de salientar o extraordinário papel desempenhado pelo Rei D. Carlos I no domínio da divulgação científica, fazendo chegar ao conhecimento público os resultados das suas campanhas oceanográficas, organizando exposições com o material zoológico recolhido ou ainda com istrumentos de uso corrente em oceanografia e aparelhos de pesca.

D. Carlos I, publicou também diversas obras de reconhecido mérito científico, de entre as quais se destacam "Resultados das Investigações Scientificas feitas a bordo do Yacht "Amélia" .Pescas maritimas. I. - A Pesca do Atum no Algarve em 1898 e II- Esqualos obtidos nas campanhas de 1896 a 1903 efectuadas a bordo do "Yacht Amelia".
O mérito da sua obra foi internacionalmente reconhecido, como o demonstram os numerosos diplomas que lhe foram conferidos pelas mais prestigiadas instituições científicas da época.

Estabeleceria uma profunda amizade com Alberto I, Príncipe do Mónaco, igualmente um apaixonado pela oceanografia e as coisas do mar. Desta relação nasceu o “Aquário Vasco da Gama”, inaugurado em em 20 de Maio de 1898, que pretendia em Portugal desempenhar papel semelhante ao “Museu Oceanográfico do Mónaco”.

Rei D. Carlos I a bordo do yacht “Amelia”, em 1901

 

Interiores do yacht “Amelia”

Camarinha da Rei

 

Sala de refeições

                               Camarinha da Rainha                                                                      Escritório

 

Foi neste yacht que a família real, já com D. Manuel II como rei, embarcou para o exílio na Ericeira, em 5 de Outubro de 1910 rumo a Gibraltar, donde seguiriam para Inglaterra num navio inglês.

Última bandeira de Comodoro do Real Club Naval de Lisboa hasteada, pelo rei D. Manuel II no iate “Amelia” ao chegar a Gibraltar

Em 1911, em consequência da implantação da República, o yacht “Amelia”  seria rebaptizado com o nome de NRP “Cinco de Outubro”, passando a ser considerado Cruzador.

Aviso “Cinco de Outubro” no porto de Ponta Delgada

Em 1912 o NRP “Cinco de Outubro” foi reclassificado como Aviso, sendo, essencialmente empregue como navio hidrográfico. Até 1937 participou nas missões hidrográficas na costa de Portugal Continental e no arquipélago da Madeira. De observar que, também em 1901, foi incorporado na Marinha Portuguesa um navio quase homónimo, o cruzador “Rainha Dona Amélia”. Este navio passou a ser designado NRP “República”, depois de 5 de Outubro de 1910.

A família Real possuíu ainda outros três embarcações de recreio, ambos já no início do século XX e de menores dimensões, o palhabote “Lia” o yacht a vapor “Sado” .

                                        Palhabote “Lia”                                                                         Iate “Sado”

 

Era no palhabote “Lia” que a família real assistia às regatas em Cascais. Mas no ano de 1902, um dos mais profícuos em disputas náuticas, a “Comissão de Regatas de Leixões”, dirigida por Alberto Kendall, organizou a primeira Regata Oceânica realizada em Portugal, e que para tal pediu o auxílio do “Real Clube Naval”. O “Lia” inscreveu-se na prova ao que a Comissão de regatas escreveu: «(…) Foi com verdadeiro enthusiasmo que recebemos a noticia telegraphica que S.M. a Rainha se dignou abrilhantar as nossas festas mandando o seu palhabote “Lia” a Leixões, pelo que a Comissão está penhoradíssima. (…)». A prova teve início em Leixões a 10 de Setembro de 1902 e foi vencida pelo “Lia” que chegou a Lisboa a 12 de Setembro.

Moeda e selo comemorativos do centenário das expedições oceanográficas

fotos in: Hemeroteca Digital,Arquivo Municipal de Lisboa